terça-feira, 25 de março de 2014

O MINISTRO E O VIAGRA

24/03/2014
 às 23:49 - Reinaldo Azevedo na Veja

Lembram-se daquele imbróglio do Ministério da Saúde com a substância ativa do Viagra? Pneumologista escreve para o blog e diz que o caso é bem mais sério. Vejam por quê

Recebo do médico Luciano Grohs, leitor deste blog, o que muito me honra, um e-mail com uma informação relevantíssima. Publiquei aqui uma reportagem da VEJA desta semana informando uma possível maracutaia num convênio firmado pelo Ministério da Saúde, na gestão de Alexandre Padilha, para a compra de uma substância chamada “citrato de sildenafila” — princípio ativo do Viagra. O governo fez o convênio de R$ 150 milhões com uma empresa chamada Labogen Química Fina e Biotecnologia. Segundo a Polícia Federal, a empresa não existe e é só um dos braços de um esquema de lavagem de dinheiro. A Labogen encomendaria o remédio a um outro laboratório por 40% do preço (R$ 60 milhões). E os outros R$ 90 milhões? Uma boa questão, não é mesmo? Para ler o post, clique aqui.
Pois é! Grohs, que é especialista em pneumologia, coordenador do Centro de Referência em Hipertensão Pulmonar do Hospital Pompeia e ex-conselheiro do CRM do Rio Grande do Sul, mostra que a questão é ainda mais séria. Reproduzo seu e-mail em azul.
Reinaldo,
A questão do citrato de sildenafila é um pouco mais séria do que o descrito em teu texto. Além de tratar a disfunção erétil, o sildenafil e usado para tratar uma doença grave: a hipertensão arterial pulmonar.
Esta doença acomete cerca de 20 pessoas por cem mil habitantes. Sem tratamento, a expectativa de vida e de 2,8 anos, e os tratamentos são efetivos e de alto custo. São usadas três categorias de remédios, uma delas é o sildenafil e semelhantes, isolados ou em associação. O sildenafil não é o remédio mais estudado nem o mais utilizado no mundo. Alguns estados, São Paulo, por exemplo, têm protocolos estaduais de tratamento. São medicações de alto custo.
Ha mais de dez anos, espera-se por um protocolo nacional, que dê acesso à medicação aos pacientes com essa doença. Foi publicado pelo Ministério da Saúde em janeiro um protocolo que forca o uso de Sildenafil.
Assim, antes do que foi mostrado, foi imposto aos pacientes com uma doença grave o remédio que fez parte da negociata. A situação não é de confusão com um remédio para impotência, mas de uma terapia valiosa para uma doença grave, forcando os que o prescrevem a seguir um protocolo tecnicamente questionável.
Por Reinaldo Azevedo
24/03/2014
 às 21:06

Rebaixamento do Brasil, da Petrobras e da Eletrobras reflete pessimismo dos agentes econômicos; lobby do governo para evitar rebaixamento dá errado

A agência de classificação de riscos Standard & Poor’s rebaixou a nota do Brasil de BBB para BBB-. A decisão reflete o pessimismo dos agentes econômicos. Eu explico. Entre os dias 10 e 13 de março, Lisa Schineller, diretora da S&P, esteve no Brasil com a sua equipe, conversando com representantes do setor privado. Uma agência de rating, que avalia a capacidade de pagamento de governos e empresas, analisa os números, os dados técnicos, mas pesam também os fatores, digamos, humanos, políticos. Se há uma crença generalizada de que o governo vai fazer tudo certo, ainda que os números não estejam muito bons, a tendência é adiar o rebaixamento na expectativa de uma melhora. Se, ao contrário, a maioria aposta que o governo vai fazer tudo errado, então os números negativos apressam o rebaixamento.
Foi o que aconteceu. Lisa e sua equipe colheram dos agentes econômicos do setor privado as piores impressões. Pouca gente confia no governo, e esse é um problema grave.
O que é a chamada “classificação de risco”? As agências avaliam se há a possibilidade de o país em questão dar calote na sua dívida. Quando conclui que não há, o país passa para a categoria de “grau de investimento”. Ocorre que, dentro dessa categoria positiva, há 10 níveis: o menor bom nível da S&P é BBB- e o maior é AAA. Quanto mais alto estiver o país, menos juros ele paga para financiar suas operações no mercado internacional.
O Brasil estava, segundo a classificação da S&P, no penúltimo dos bons degraus: BBB. Agora, passou para BBB-. Qual é o risco? Abaixo do BBB-, já se entra no grupo dos maus pagadores, que é chamado “Grau especulativo”. Também nesse grupo há degraus: no caso, são 11. O melhor dos piores é “BB+”. O pior dos piores é “C”. Segundo a Standard&Poor’s, o governo brasileiro está perdendo margem de manobra e está mais exposto a choques externos. Escreve a S&P: “A perspectiva de baixo crescimento reflete fatores cíclicos e estruturais, incluindo o nível de 18% de investimentos em relação ao PIB e a desaceleração no mercado de trabalho. Combinados, esses fatores configuram a capacidade reduzida de manobra do governo no caso de choques externos”.
As agências de classificação de risco caíram em certo descrédito depois de 2008, com a crise das hipotecas nos EUA. Não sem razão. Por isso mesmo, elas têm sido mais rigorosas em suas avaliações. O governo tem recorrido a uma verdadeira guerra de propaganda para tentar evitar rebaixamentos da agências. Até o ex-ministro Delfim Netto, que já foi um saco de pancada do petismo no passado, entrou em campo.
Delfim chegou a afirmar na semana retrasada, logo depois da passagem de Lisa pelo Brasil, que estava convicto de que a Standard & Poor’s não rebaixaria o Brasil porque o país faria o superávit de 1,9% do PIB e porque, segundo disse, a presidente Dilma teria mudado, estando disposta a corrigir os preços dos combustíveis e da energia elétrica, o que levaria a uma redução do consumo, afastando o risco de apagão.
Petrobras e Eletrobras
A S&P também rebaixou o rating global da Petrobras e da Eletrobras. A primeira também passou do triplo B para o triplo B negativo, mesma queda sofrida pela Eletrobras em moeda estrangeira. Em moeda nacional, a estatal do setor elétrico caiu de A- para triplo B.
 Parece que os representantes da S&P que andaram por aqui, a exemplo dos representantes do setor privado, estavam bem menos otimistas do que Delfim. No ranking da S&P, agora, o Brasil está a um nível do grau especulativo. A gente pode fazer uma de duas coisas: xingar as agências ou torcer para o governo arrumar as contas. Prefiro a segunda opção.

Por Reinaldo Azevedo

Nenhum comentário:

Postar um comentário